martes, enero 31, 2006

CARLOS BARBARITO: UMA APROXIMAÇÃO À NARRATIVA DE ALFONSO PEÑA


A metade da noite. Como poderíamos fazer para
medir a noite?
A. P., O doce sortilégio dos elevadores

Falam, se inclinam, sorriem, nas entranhas do poço.
José Lezama Lima, A maior fineza

1.
Durante anos, os primeiros quinze em minha vida como leitor, li somente narrativa. A poesia, eixo e fundamento de existência de criador, era então algo remoto, quase desconhecido. As aventuras, tanto na superfície do mundo como em seus abismos, no espaço sideral, ocupavam a maior parte de minhas horas logo que voltava da escola. Eu morava em uma casa muito velha, hoje demolida, em Pergamino, uma cidade situada ao norte da província de Buenos Aires, em pleno Pampa Úmido; no quintal de terra, debaixo do paraíso (o Paraíso), me sentava em uma cadeirinha de madeira e palha. Não poderei nunca ter noção exata da contribuição daquelas leituras, falo do que aquela carga de imaginação pôde enriquecer-me, mas posso afirmar que essas páginas (Verne, Carroll, Salgari, também outros autores de regulares e péssimas novelinhas de ficção científica etc.) foram definitivas para minha formação como escritor. Agora, a razão da minha guinada para a poesia, em uma tarde de chuva inesquecível em que escrevi meus primeiros versos, quando ainda adolescente, até hoje segue sendo para mim um mistério – o que, sem dúvida alguma, festejo. O estranho é que, desde há anos, leio mais sobre ciência do que sobre literatura e leio mais arte que poesia e, sobretudo, gosto de trilhar páginas de textos de difícil ou impossível classificação, raros, secretos, obscuros. Em alguma parte de minha cabeça se encontram e se abraçam Hawking e Paracelso, e então tudo pode acontecer. Poderá dizer algo diferente Alfonso Peña, velho amigo cuja distância geográfica, apenas geográfica, me reclama um prólogo para seu novo livro? Para ele e para mim, arrisco a afirmar, aquele Newton que, em sua câmara, dispunha de ferramentas de rigorosa ciência moderna sem esquecer alguns instrumentos da velha alquimia. Imagino Alfonso, como um homem contemporâneo, atento aos seus dias e ao seu século, sair de noite ao campo, e, na intempérie, recolher em amplos e brancos lenços o colóide rubi. Literatura: agricultura terrestre e agricultura celestial.

2.
Belomante: quem adivinha através de tiros de flecha. A corda bem tensa e, logo, o disparo, segundo a direção, curva e lugar alcançado, tal ou qual futuro. Gosto de pensar no escritor como cultivador desta mancia. Alfonso Peña lança flechas e que aconteça o que tenha que acontecer; seus personagens saem ao mundo, amam, morem, se abraçam e se golpeiam, belo e terrível remoinho, onde tudo gira, que é a vida. Mas, também berílistica, método de adivinhação mediante as imagens que se formam nos espelhos. Um espelho é, para Borges, sinônimo da multiplicação – símile da cópula –, uma abominação; é, do mesmo modo, uma impossibilidade para os vampiros; é, situados em certa ordem, labirinto ou proliferação dos corpos na orgia que, desde uma posição exata, contempla o voyeur. Cada conto de Alfonso Peña é um sistema de espelhos, em vigília, sonhando ou em transe. O mundo deste narrador costarriquenho: galerias, passadiços, subterrâneos, em penumbras, escuros, apenas sulcados por uma luz que vem de alguma greta no telhado. Um mundo freqüentemente ímpio que o narrador vê com piedade. Tem razão Tomás Saraví: …um sorriso não cínico senão cheio de piedade, porque adivinha na loucura generalizada o drama escondido em cada congênere. Flecha e espelho; no fundo, como sempre, a morte; antes, os dias e as horas, o desejo, o mar, as ondas no mar; a insistente pergunta. Tem que ter um sentido, não é possível que isto não tenha um sentido. E, ao mesmo tempo, a antiga visão que viu Heráclito há séculos: crianças que brincam com dados.

3.
Atrás da porta, o Paraíso. Ou o inferno. Lembro-me de uma novelinha de um tal Clark Carrados (logo soube que era pseudônimo de um espanhol): uma porta, no segundo andar de uma casa, inclusive era possível vê-la desde fora, uma porta absurda, que não dava para lugar nenhum. Mas, aberta desde dentro, caminha em outra dimensão: outro planeta, selvas de raras samambaias, surpreendentes animais. Um paraíso? Sim, e também seu oposto: enredos para extraviar-se, bestas com enormes dentes, mundos calcinantes, asfixiantes. Nos contos de Peña há, uma e outra vez, uma profunda greta; através dela, outro lado, sim, que promete luminosidade, relâmpagos, estalos e oferece novas dores, novas angústias. Em Peña sempre é noite, para mal e para bem, punhais, decotes, drinques, gritos, guitarras, um prolongado andar deixando no chão as pegadas que delatam uma travessia tão consciente quanto arriscada. Ainda que a cena transcorra de dia, é de noite – há sombras que caminham sem sapatos, vestidos abandonados sobre as cadeiras, flashes remotos, baralhos em trapaças anônimas onde, de novo, um jogo pode decidir a sorte do universo. E, a cada linha, detrás de cada muro ou janela, a suspeita de que ali pode estar Behemot, dupla presença que é tanto boi dedicado ao Messias quanto elefante, mastodonte com olhar e jeito de demônio.

[Em Muñiz, Buenos Aires, noite, 3 de novembro de 2003.]