lunes, junio 27, 2005

Floriano Martins: PRÓLOGO DE RADIACIÓN DE FONDO DE CARLOS BARBARITO

O RELÂMPAGO DA SOMBRA
O poeta Carlos Barbarito assim inicia seu livro La orilla desierta (2003): “Esta es mi vida, parece decir la hoja / que cae desde la rama / o la piedra que rueda por la ladera”. E há aqui um deslocamento estratégico que faz com que o poema salte de uma esfera a outra. Não é o poeta quem diz: “Esta es mi vida”, como se poderia pensar em um primeiro momento, mas sim a natureza, que aqui nos fala através da folha e da pedra. Contudo, ao mesmo tempo sabemos que é o poeta quem lhes empresta a voz. Transmuda-se então em pedra e folha para nos aproximar da intimidade existencial da natureza. Não à toa e quase ao final, encontramos neste mesmo livro a indagação: “¿Quién vive? ¿Quién / es visible, tras sábanas, / trasiegos? ¿Qué / alcanza brote, pulpa?” – para mim, este deveria ser o poema final do livro, pois me parece vital que as coisas se encerrem sempre com uma cortante indagação.De alguma maneira, La orilla desierta é um livro que nos prepara – ou mais essencialmente prepara a seu autor – para a entrada em Radiación de fondo (2005), considerando que ali temos quase que um inventário da desnudez, em todos os sentidos. É como se agora percebêssemos o que cada um fez com sua visibilidade, algo que responda à pulsante indagação: “¿Hay algo afuera, / detrás de la última piedra / más allá de los altos tallos / que crecen sobre el horizonte?” E uma vez mais se confundem as vozes – sempre estrategicamente –, do poeta e da natureza. E há sempre um leitor apressado que insiste: a chave, qual a chave dessa poética?Carlos Barbarito está possuído pelo fascinante dom de não entregar ao leitor senão pistas; jamais a chave. E uma das pistas intrigantes de sua poética está na palavra nudez e seus correlatos, que se repete à beira da exaustão, de livro em livro, e que neste Radiación de fondo trafega como uma guia, uma espécie intrigante de iluminação acima de todo erro e toda cinza. Eis aí a presença marcante do inventário das coisas que desapareceram sem que tivessem sido devidamente despidas. Tanto no poeta quanto na natureza, o inventário das máscaras que não se revelaram ou então que se desfizeram “sin centro de razón o mistério”. Evidente que a presença deste nudus mantém sua sedutora ambigüidade: é tanto privação quanto revelação, tanto o que falta quanto o que se mostra. Inventariá-la significa provocar o leitor (“¿un gran guionista?”) – e também o próprio poeta – para que separe joio e trigo. E por vezes essa dualidade nos convence de sua eficácia. Habilmente o poeta faz com que a linguagem navegue entre vazio e plenitude, fluxo e refluxo, provocando um certo mal estar na constatação desse trânsito. É um jogo, claro. Não há dúvida de que a linguagem seja um jogo. Porém sua astúcia está em realizar-se sem ornatos, ou seja, também o ludíbrio está desnudo. E nisto radica a grande força deste livro.Ao conversar com o poeta, me disse gostar da “idea de la poesía como un modo de la radiación, una radiación siempre diversa, polisémica surgida desde el fondo de nosotros mismos”, e eis aí um terrível segredo que (nos) revela: a fonte da radiação, uma radiação de fundo, cósmica até o ponto em que é cósmica a existência humana, mas essencialmente um jorro – imprevisível? - atraído? – do que há de mais negro no homem, e em sua relação com a natureza. Não basta dizer isto, no entanto, para que o livro se abra como um testamento diante de seu favorecido. A poética de Carlos Barbarito vem habilmente provocando uma inquietude entre a coisa e seu desmoronamento, entre o que imaginamos ser e o que de um momento para outro se desfaz. Como ele próprio sugere em um poema de La luz y alguna cosa (1998), somos ao mesmo tempo uma coisa e outra, ou várias e inclusive as que não conseguimos nomear.E temos ainda essa paixão declarada da poesia pela ciência, como recorda o poeta (“mi fascinación por la astrofísica”), onde o abismo não é tão grande quanto parece, ou seja, a radiação cósmica de fundo está intimamente ligada à paralaxe, que, por sua vez bem poderia ser uma figura de linguagem, um deslocamento de retina, uma variação, sim, uma variação. Mas o que fazemos com as distintas – entre infinitas e inconciliáveis – maneiras de ver o mundo? Não pode haver correção de ângulo, uma vez que não se pode dar por certo o que não passa de confissão ou apreensão. De volta ao princípio: “Esta es mi vida, parece decir la hoja / que cae desde la rama / o la piedra que rueda por la ladera”. Ao buscar um desnudamento intenso, a poesia de Carlos Barbarito descobre que são infinitas as camadas de nudez que se disfarçam de vestes, e que tal aventura é tão inesgotável quanto a própria vida.Esta descoberta de um aspecto envolto em mil aspectos é algo que poderia ter alcançado outro corpo, se acaso arte e ciência não tivessem sofrido, em certo momento, de uma vaidade galopante, deixando o homem completamente sem vestes. Radiación de fondo, sob certo aspecto, expõe esta nudez – e cabe mencionar a referência a Pascal na epígrafe com que abre o livro -, inquirindo sobre suas razões e o que fazer ante uma vida sem artifícios. E como se oscilasse entre a negligência e a transgressão, o homem – também o poeta? – também o leitor? – não sabe mais a que imputar sua culpa. E quanto mais se despe, não encontra senão culpa, imprudência, crime, hesitação, prejuízo, seu inventário incontornável. A razão nos enche de culpa? Não nos alimentamos de outra coisa, senão de culpa? Será esta nossa radiação de fundo?