lunes, junio 27, 2005

Agulha conversou con Carlos Barbarito
Agulha conversou com alguns importantes poetas em vários países da América Hispânica em torno de aspectos que podem ser considerados balizas viáveis para a identificação de uma consciência poética, possibilitando ao leitor compreender quais relações estabelecem os poetas com seu tempo, seus pares e as condições históricas que definem o próprio desdobramento de seu trabalho. Ao longo de várias edições, seguiremos ouvindo a diversos poetas, sempre preocupados em levar ao leitor um cenário que ambiente a visão de mundo desses poetas, particularizando a realidade da poesia na América Hispânica. Neste primeiro momento, conversamos com o venezuelano Juan Calzadilla (1931), o colombiano Raúl Henao (1944), a chilena Sonia Murillo-Martin, os mexicanos Blanca Luz Pulido (1956) e Eduardo Arellano Elías (1959), o argentino Carlos Barbarito (1955), os peruanos Pedro Granados (1955) e Reynaldo Jiménez (1959), e os uruguaios Washington Benavides (1930), Alvaro Miranda (1948) e Mariella Nigro (1957). (F.M.)
1. Quais são tuas afinidades estéticas com outros poetas hispano-americanos?– Se algo se destaca no cenário atual da poesia hispano-americana é a não comunicação entre autores, inclusive, falo agora de meu país, entre os que, teoricamente, deveriam estar próximos, ou bem próximos, entre si. Assim, do Uruguai sei de Héctor Rosales porque é amigo de muito tempo e de nenhum outro poeta; do Brasil tenho escassas notícias – com a exceção do Jornal de Poesia –; de outros lugares, meu conhecimento se detém em nomes e obras da metade do século porque já são matéria de antologias. Obviamente, é da Argentina de onde me chegam as mais abundantes notícias e para minha casa muitos poetas enviam seus livros – aqui faço referência a uma problemática de meu país na questão da poesia editada: a falta de distribuição e difusão, a dureza que é publicar. Falo então de meu país. Não há uma estética dominante, embora muitos tentem demonstrar o contrário, mas sim uma variedade de estéticas que se desdobram em leque. Cada poeta, trata-se de um fenômeno já de mundo estendido pelo mundo, propõe sua estética, dá a conhecer sua obra – que não está, com freqüência, ligada a um estilo, um modo de dizer, uma única formulação –, com a qual o olha do estudioso dificilmente topa, ainda que tenhamos muitas antologias. Parece-me que, além desse mosaico, há pontos em comum entre os poetas argentinos das últimas décadas. Conseqüências de uma história vivida – e sofrida – que são percebidos no uso de certas palavras, de certas atmosferas, de certas imagens. É que, recorro a Adorno, depois de nosso Auschwitz já não foi possível a poesia como a vinham entendendo e escrevendo; tudo se deslocou, transtornou-se, li por ali que a elegia, típica dos poetas dos anos 40, abriu caminho para espécies de fórmulas de exorcismo. É que já não se trata da morte do corpo com o corpo presente, exposto, que testemunha seu destino, mas trata-se de um corpo ausente, negado, que obriga os outros a consumirem-se em perguntas. Acontece que recebo livros – mesmo de autores mais recentes – onde encontro passagens que parecem ter sido escritas por mim, ou por poetas de minha geração, e não se trata apenas de influências – que podem existir, que existem –, mas sim de uma história ainda não solucionada que segue desatando seus mesmos fantasmas, obrigando às mesmas perguntas, mesmo que esses poetas não tenham vivido aqueles dias. Não me estendo em características que os críticos vêem melhor do que eu; falo do que sinto ao ler nossa poesia das três últimas décadas: obscuridade, falta de ar, o corpo fragmentado, a solidão. Acaso esses elementos não sejam distintos do resto do que hoje se escreve na América Hispânica. Como em tudo, o tempo terá a última palavra.
2. Quais contribuições essenciais existem na poesia que se faz em teu país e que deveriam ter repercussão e reconhecimento internacionais?– Há poetas que alcançaram plena ou parcial difusão no exterior: Jorge Luis Borges, Leopoldo Marechal, Roberto Juarroz, Juan Gelman, Alejandra Pizarnik, menciono apenas uns poucos, e outros que não o foram em absoluto. Há múltiplos motivos para isto, de toda ordem. Há livros que, me parece, teriam que ser lidos além de nossas fronteiras, como Hospital Británico, de Héctor Viel Temperley, ou Ova completa, de Susana Thénon. O surgimento da Internet pode contribuir para esse conhecimento. de fato, já se percebe sinais disto.
3. O que impede a existência de relações mais estreitas entre os diversos países que conformam a América Hispânica?– Amiúde se diz que estes não são bons tempos para a poesia. então me indago: houve alguma vez tempos propícios para a poesia? E mais: o que significa bom, propício? Acaso se está falando de problemas reais, tais como os citados anteriormente, acerca de edição, circulação, difusão. Um poeta, se fiel a seu pensamento, se oposto à domesticação, ao adocicamento, sempre é perigoso, para ele não há nem lugares nem tempos propícios. Sempre estará só, ou próximo de uns poucos, em sua tarefa. Necessita tão-somente de papel e lápis. E sempre há caminhos, quase sempre imprevisíveis, para que sua obra chegue, cedo ou tarde, aos demais. O que necessitamos, sim, é derrubar os tabiques entre uns e outros, que o poder levanta porque o poder sempre tem medo, utilizar todas as vias, todas as possibilidades de comunicação. Perguntar: quem está do outro lado do muro?, como na obra de Pink Floyd. Esta página idealizada no Brasil, como tantas outras no continente, contribui plenamente para essa tarefa que, creio, é imprescindível.